Fiu-fiu

 

           Fonte: imagem gerada por inteligência artificial. Gemini.

Por Luis Fernando Veríssimo -  03/08/2014


    Lançaram agora um celular à prova d’água, que você pode usar no chuveiro. Ou em qualquer outro lugar embaixo d’água. No mar, por exemplo.
    — Bem, não me espere para o jantar...
    — Onde você está?
    — Sabe a nossa pesca submarina?
    — O que houve?
    — Pensei que fosse uma garoupa e era um tubarão. E ele está vindo na minha direção.
    — Você ainda está embaixo d’água?!
    — Estou.
    — E o seu arpão?
    — O tubarão engoliu!
    — Ligue para a Guarda Costeira!


Tubarão perseguindo homem que fala dentro do mar com o celular.          Fonte: imagem gerada por inteligência artificial. Gemini.


    São cada vez mais raros os lugares em que você pode se ver livre de celulares, e agora nem as piscinas estão seguras.

    Os celulares são práticos e se tornaram indispensáveis, eu sei, mas empobreceram a vida social. Existe coisa mais melancólica do que uma mesa de quatro pessoas, num restaurante, em que três estão dedilhando seus smartphones e uma está falando sozinha? Ou um casal em outra mesa, os dois mergulhados nos respectivos celulares sem nem se olharem, o que dirá se falarem — a não ser que estejam trocando mensagens silenciosas entre si, o que é ainda mais triste?

    Os celulares podem ser perigosos de várias maneiras, mesmo que não derretam o cérebro, como se andou espalhando há algum tempo. Imagino uma velhinha que ganhou um celular dos netos sem que estes se dessem ao trabalho de explicar seu funcionamento para a vovó. Não contaram, por exemplo, que o celular dado assobia quando recebe uma mensagem. É um assovio humano, um nítido fiu-fiu avisando que alguém ligou, e que pode soar a qualquer hora do dia ou da noite. E imagino a vovó, que mora sozinha, dormindo e, de repente, acordando com o assovio. Um fiu-fiu no meio da noite!


             Fonte: imagem gerada por inteligência artificial. Gemini.


    A vovó, se não morrer imediatamente do coração, pode ficar apavorada. Quem está lá? Um ladrão ou um fantasma assoviador? E o assovio tem algo de galante. A vovó pode muito bem sair da cama, sem saber se está acordada ou sonhando, e caminhar na direção do fiu-fiu sedutor, como se tivessem vindo buscá-la. Alguém pensou nas vovós solitárias quando inventou o assovio? 
    O fato é que não há mais refúgio. Nem castelos anti-smartphones com um fosso em volta. Eles agora podem atravessar o fosso. 



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